36 A eletrificação terá papel importante. Em 2025, as empresas do setor emplacaram 20.475 automóveis e comerciais leves eletrificados, alta de 159% sobre 2024. Os eletrificados podem representar entre 25% e 40% da frota leve das locadoras até 2030, desde que a conta financeira feche. Elétricos puros fazem mais sentido em operações previsíveis e com recarga organizada. Híbridos atendem melhor aplicações com maior incerteza de rota, necessidade de autonomia e menor dependência de infraestrutura. O Brasil dificilmente será um país com uma solução única. A infraestrutura energética também poderá se tornar parte do ativo da locadora. Grandes empresas poderão instalar carregadores em bases próprias, negociar energia, controlar horários de recarga e até vender capacidade ociosa para terceiros. Nesse ponto, a locadora passará a administrar não apenas veículos, mas também energia, disponibilidade e eficiência operacional. As baterias exigirão acompanhamento individual. Estado de saúde, histórico de recarga, degradação e garantia poderão interferir na tarifa, no prazo de permanência do veículo e no valor de revenda. Recompra, segunda vida e garantia estendida deixarão de ser detalhes técnicos para se tornar elementos do negócio no dia-a-dia da operação. Também avançarão os veículos definidos por software. Funções ativadas por assinatura, atualizações remotas, ADAS e pacotes digitais exigirão nova governança. A locadora terá de controlar licenças, usuários, versões, permissões e responsabilidades. O carro ficará mais inteligente, mas a gestão também ficará mais complexa. A evolução dos veículos autônomos deve ser tratada com cautela. A tecnologia poderá avançar em ambientes controlados, como mineração, portos, condomínios logísticos e rotas repetitivas. Imaginar, porém, uma eliminação ampla de motoristas no Brasil nos próximos anos é mais marketing do que realidade. Fabricantes, bancos, plataformas digitais, empresas de energia e grandes varejistas tentarão ocupar partes do negócio tradicional das locadoras, alterando a competição. Uma fabricante poderá oferecer assinatura diretamente; uma empresa de energia poderá financiar veículo e carregador; uma locadora poderá vender energia, dados, gestão e mobilidade, e não apenas diárias ou mensalidades. Neste ambiente, escala será relevante, mas não será tudo. As menores locadoras não necessariamente desaparecerão. Poderão sobreviver como especialistas em veículos adaptados, operação premium, uso severo, agronegócio, saúde, mineração, mobilidade regional ou atendimento personalizado. O maior risco deste cenário é o encantamento tecnológico. Muito dinheiro pode ser gasto antes de existir um modelo econômico sustentável. Um novo aplicativo não paga boleto e uma inteligência artificial não corrige um valor residual mal calculado. Uma frota mal comprada e mal gerida continuará sendo uma frota mal comprada e mal gerida, mesmo com software bonito. Portanto, a pergunta não é se todo esse cenário disruptivo acontecerá até 2030. Não acontecerá! O questionamento mais útil é: quais elementos deste cenário já estão surgindo e em que velocidade cada locadora terá de reagir? A certeza é que muitas partes, em algum momento, serão incorporadas à rotina do setor. Planejamento será fundamental para decidir quando investir, quando esperar e quando recuar. E a regra geral da locadora continuará valendo: o carro precisa rodar, gerar receita, voltar inteiro e ser vendido pelo preço certo. Afinal, como dizia o doutor Emmett Brown, da trilogia De Volta para o Futuro: “Seu futuro ainda não foi escrito. O de ninguém foi. Seu futuro é o que você fizer dele.” * Milad Kalume Neto é conselheiro independente da ABLA e diretor da K.Lume Consultoria Automobilística.
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